D005 | Alípio Padinha no Round the Corner

© Alípio Padilha

Alípio Padilha | Teatro numa Caverna

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Há quatro anos que acompanho o Grupo de Teatro da Universidade Nova de Lisboa. Estes espectáculos são apresentados no piso -4 da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas, um lugar incomum que é assumido como espaço de criação, povoado por “lixo” universitário, livros, material informático em desuso, com linhas amarelas desenhadas no chão (estamos num parque de estacionamento) dividindo o espaço. Cada ano, cada novo espectáculo, cada encenador, traz uma nova disposição e uma nova forma de assumir aquele espaço dominado pelo betão e por uma paisagem industrial underground. Os actores correm por entre o público e chamam os espectadores a assumir um papel activo durante a performance. De repente o espaço fica mesmo vazio de actores para logo a seguir as personagens reaparecem em cena, irrompendo de todos os recantos. Corre-se, dança-se, fala-se de como é estudar na universidade, tudo a coberto não só das próprias instalações universitárias como de uma ideia geral que segue o fio da narrativa. Tudo através do teatro, ali à vista desarmada. Desde os primeiros ensaios, o texto vai crescendo, com a participação activa de todos os envolvidos, do encenador aos actores, todos acrescentam, em cada ensaio, mais uma parte do texto, mais uma música, mais uma projecção. O ensaio geral pode reformular todo o espectáculo. É uma liberdade fresca e típica do Teatro Académico.
O facto de me permitirem estar presente desde os primeiros ensaios, permite-me ter uma relação de proximidade com o meu objecto fotográfico. À medida que vou conhecendo o projecto, a forma como o fotografo evolui e altera-se. Não me limito a fotografar o que o público verá. Registo os momentos das conversas após cada espectáculo, o diálogo entre toda a equipa sobre o desempenho e o que há a melhorar ou a alterar. Raros são os casos em que, como fotógrafo de cena ou de teatro, me é permitido este acesso integral ao processo criativo. Neste conjunto de fotografias pretendo mostrar a irreverência deste espectáculo, desvendar o meu olhar sobre um processo que só pára de evoluir quando, no final de Maio, o GTN sai de cena.

Alípio Padilha

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